Minha viagem (mais ou menos) produtiva

Há cerca de duas décadas, sinto ansiedade em viagens. Sempre tenho a impressão de que pode surgir algum problema no trabalho e que os hábitos que procuro manter na minha rotina — como praticar exercícios, ler e estudar — acabarão prejudicados. Além disso, todo o tempo gasto em preparação, espera, ônibus, Uber e avião, somado ao fato de dormir fora da minha cama, me alimentar de forma irregular e aleatória e lidar com uma rotina incerta, muitas vezes me deixa mais cansado do que estava antes de viajar.

Por outro lado, viajar com a família proporciona muitos momentos de proximidade e diversão, e conhecer novos lugares é, quase sempre, uma experiência enriquecedora.

Na minha viagem mais recente, quase consegui equilibrar as duas coisas — diversão e hábitos saudáveis — usando algumas estratégias diversas, com resultados variados.

Lista/app de hábitos. Durante a viagem, continuei usando o mesmo aplicativo que utilizo normalmente para acompanhar meus hábitos: o Loop. Ele é bem simples e gratuito. Basta dar uma olhada para ver o que precisa ser feito naquele dia e, ao final da viagem, é fácil ter uma visão geral de tudo o que foi realizado.

Leitura. O Kindle me ajudou demais nisso. Costumo revezar entre dois ou três livros ao mesmo tempo, porque às vezes não tenho paciência para passar longas horas lendo a mesma obra. Misturo ficção com não ficção para não ficar entediado. O Kindle (ou qualquer outro e-reader) permite carregar vários livros sem aumentar o peso da bagagem e, em alguns casos, até cabe no bolso da calça. Assim, cada momento de espera tediosa se transforma em uma oportunidade de leitura. Tudo que precisei fazer foi escolher quatro ou cinco livros de antemão (mesmo sabendo que talvez tivesse que abandonar algum no meio do caminho).

Aprendizado. Mesmo que você esteja aprendendo de formas diferentes da simples leitura de livros, o Kindle pode ajudar, já que aceita documentos enviados por e-mail (aliás, você pode copiar artigos como esse num documento e enviar!). Além disso, é possível preparar quantos aplicativos, audiobooks e podcasts considerar necessários no celular. A ideia é viajar já preparado, com os recursos organizados de antemão, para aproveitar cada momento livre como uma oportunidade de aprendizado.

Eu me empolguei um pouco e acabei baixando mais de 50 podcasts no celular antes de viajar, mas só ouvi dois ou três. Na prática, quando estou passeando prefiro escutar os sons do lugar — e recomendo que você faça o mesmo. Os podcasts acabaram servindo apenas para os períodos em ônibus ou avião (principalmente se você sente enjoo ao tentar ler em movimento).

Eu acho que deveria mencionar o óbvio: viajar para um país onde você não fala o idioma pode ser um grande incentivo para aprendê-lo antes de ir e praticá-lo enquanto estiver lá.

Alimentação. Levei um pote de whey bem cheio. Ele ocupa muito mais espaço do que o Kindle, mas facilitou bastante nos momentos em que eu não queria sair procurando restaurante, além de ajudar a economizar algum dinheiro. Como carboidratos são fáceis de encontrar em praticamente qualquer esquina, o whey acabou sendo uma solução prática para mim — ajudou a controlar a fome e, com isso, reduziu o nervosismo e a tendência de escolher comidas hipercalóricas.

Trabalho. Uma parte grande do meu trabalho pode ser feita online — talvez no seu caso seja semelhante (ou, melhor ainda, talvez você nem precise pensar em trabalho durante as férias!). Para mim, bastou levar um laptop leve e deixar os aplicativos mais importantes prontos. Nem cheguei a desligar o aparelho; apenas abaixava e levantava a tela quando precisava esperar alguém se arrumar ou  tomar banho. Felizmente, não recebi muito trabalho durante esse período.



Treino. Em cada hotel que visitei, procurei uma academia. Quando não havia, fazia flexões, agachamentos sem peso e outros exercícios simples. É perfeitamente possível realizar um bom treino apenas com o peso do próprio corpo. O ideal é já conhecer esse tipo de treino antes de viajar, mas, caso não conheça, é fácil encontrar opções no YouTube. Em quase todos os dias da viagem — por mais lugares que quiséssemos explorar — sobrava pelo menos meia hora para encaixar um treino. Quando não dava, eu mudava a mentalidade: carregar malas deixava de ser um aborrecimento e se tornava uma forma de me manter ativo. Além disso, em praticamente todas as viagens acabo caminhando bastante, o que também ajuda a evitar o sedentarismo.

Meditação. Nesse ponto eu não tive muito sucesso. Acho que não sou um bom meditador — para mim, ler quatro ou cinco livros é muito mais fácil do que meditar por duas horas, mesmo que a leitura leve dez vezes mais tempo. Durante a viagem, tive várias oportunidades de meditar enquanto aguardava em transportes ou em momentos de espera, mas achei extremamente difícil me concentrar. Talvez eu devesse ter preparado algum tipo de meditação guiada para facilitar. Quem sabe, na próxima vez, eu consiga aproveitar melhor essas pausas. O bom é que o pouquinho de meditação que consegui fazer pareceu diminuir um pouco o meu medo de voar!

Criatividade/escrita. Nesse ponto, também não tive muito sucesso. Gosto de escrever para este e outros blogs, mas acabei não produzindo nada durante a viagem. Talvez tenha sido a mudança de ambiente, a falta de hábito ou até mesmo a minha falta de esforço. De qualquer forma, acredito que a mudança de cenário pode ser inspiradora a longo prazo — e, pelo menos, me motivou a escrever este post!

Mudança de mentalidade. Procurei transformar cada “perrengue” em um desafio. O “treino” mais pesado que fiz nesse período foi empurrar um carrinho de bebê morro acima por mais de meia hora — mas carregar malas pesadas também conta! Quando precisei pular duas refeições, encarei aquilo como “minha prática de jejum” (sempre com moderação e hidratação!). As filas viraram treinos de respiração consciente. E, quando deixei de treinar, considerei como um período de deload que eu vinha adiando há tempos. É um pequeno truque psicológico, mas que às vezes funciona muito bem para manter o bom humor nessas situações.

Bagagem consciente. Pense com cuidado no que você deve levar e no que pode deixar para trás. Se for ficar em uma cidade grande ou já souber o que vai comer, provavelmente o pote de whey é dispensável. Da mesma forma, se tiver acesso a algum computador ou lan house, talvez nem precise carregar o laptop. A ideia é viajar com o mínimo necessário, mas sem esquecer nada realmente essencial.

O que NÃO fazer. Evite usar aplicativos viciantes e pouco úteis, como Instagram, TikTok e YouTube Shorts. Eles sugam seu tempo, te distraem da viagem que você poderia estar curtindo, e, na minha experiência, aumentam bastante a ansiedade. Por outro lado, não estabeleça “metas” para suas férias, se puder evitar. A ideia não é transformar a viagem em mais um trabalho, mas sim estar preparado para aproveitar os momentos ociosos de forma produtiva e agradável. Além disso, você não vai deixar de conhecer e aproveitar um lugar novo e único só porque tem um livro no bolso — ele pode ser lido em qualquer momento, até mesmo no banheiro! E por favor, não force seus filhos, amigos ou companheiros a terem os mesmos hábitos que você. Tem gente que prefere usar as férias para "desligar" totalmente de todos os compromissos da rotina que puder. Pode ser que em alguns dias ou viagens essa seja sua preferência também.

O mais importante dessa experiência não foram os livros que li ou os treinos que fiz, mas sim a redução daquela ansiedade e do tédio que mencionei no início do artigo. No fim das contas, isso tornou a viagem muito mais prazerosa e leve do que as anteriores.

Espero que esses conselhos sejam úteis para você. E, se tiver mais ideias para minhas próximas viagens, ficarei feliz em escutar!

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