A sombra do torturador
A sombra do torturador (1980), de Gene Wolfe, a primeira parte da série The Book of the New Sun (O Livro do Novo Sol), é uma obra incrível; tanto que a primeira coisa que considerei ao escrever esta resenha foi como fazê-la ser mais do que apenas elogios entusiasmados e uma forte recomendação.
Então, começo com uma ressalva: este livro definitivamente não é uma leitura fácil. A linguagem é barroca e intrincada a ponto de muitas vezes superar Vance e Gygax. O tema também não é leve; trata-se de uma fantasia sombria escrita por alguém que realmente entende de fantasia sombria. Muitas vezes interrompi a leitura para reler um parágrafo porque era difícil demais ou profundo demais (e, para ser honesto, eu havia abandonado o livro já no primeiro capítulo alguns anos atrás quanto tentei ler em inglês, antes de ter a tradução para o português).
Aliás, li em formato físico, mas se você tiver um dispositivo que permita acessar um dicionário com um clique, isso será especialmente útil aqui (embora não baste traduzir as palavras; "armígero" é uma classe social e não um simples guerreiro, etc.). O autor emprega com frequência termos arcaicos (e ocasionalmente um pouco de latim) onde palavras mais simples poderiam bastar, mas o faz de maneira consistente e elegante; isso enriquece ao invés de atrapalhar a leitura.
O enredo é sobre Severian, um aprendiz de torturador que se apaixona por uma prisioneira e precisa viajar devido às consequências de suas transgressões, ao mesmo tempo em que cresce da infância para a maturidade. A (excelente) construção de mundo nos leva por ruínas antigas, segredos, tecnologia perdida, religiões estranhas, mitos meio esquecidos e algumas criaturas peculiares (que não são realmente importantes neste primeiro livro).
A quase ausência de magia e monstros me faz pensar se devo chamar isto de fantasia sombria ou ficção científica sombria; provavelmente uma mistura de ambos, na verdadeira tradição do weird. A pouca magia que existe parece ser do tipo da terceira lei de Clarke (ou uma variação: qualquer tecnologia suficientemente esquecida é indistinguível da magia).
Mas fantasia e ficção científica estão longe de serem as únicas influências deste livro. Apesar de ter um cenário de “terra moribunda” e outras semelhanças com Vance, os ecos de Kafka e Borges são frequentemente claros. Como esses autores, Wolfe consegue criar um mundo que é estranho não apenas em seus habitantes e paisagens, mas também em seus pensamentos e sua moral. Preciso acrescentar que achei os personagens cheios de nuances e profundidade, não meros guerreiros fortes, senhores do mal ou donzelas em perigo.
A influência do catolicismo, por outro lado, é tanto forte quanto um pouco oculta, já que a religião também parece estar parcialmente esquecida e distorcida neste mundo em decadência. Aparentemente, o autor era um católico devoto, mas com uma visão algo sombria do mundo, como se pode ver nesta citação:
“Já foi observado milhares de vezes que Cristo morreu sob tortura. Muitos de nós já lemos tantas vezes que ele era um “humilde carpinteiro” que sentimos uma pequena onda de náusea ao ver essas palavras novamente. Mas ninguém parece notar que os instrumentos de tortura eram madeira, pregos e um martelo; que o homem que construiu a cruz era sem dúvida também um carpinteiro; que o homem que pregou os pregos era tanto carpinteiro quanto soldado, tanto carpinteiro quanto torturador. Poucos parecem ter notado que, embora Cristo fosse um “humilde carpinteiro”, o único objeto que nos é especificamente dito que ele fez não foi uma mesa ou uma cadeira, mas um chicote.”
Bem, como você pode ver, fiquei profundamente impressionado com este livro. É certamente um dos melhores que já li, não apenas porque parece absorver influências de alguns dos meus autores favoritos, mas porque a escrita é soberba por si só.
Sim, se você procura ficção científica e fantasia, vai encontrá-las aqui, mas há muito mais; o livro parece elevar o gênero a um novo nível. Sempre fico em dúvida se devo resenhar um livro sem ler toda a série (que, ao final deste volume, parece necessária — aparentemente são cinco livros neste ciclo do “Novo Sol”), mas este foi realmente excelente.
Altamente recomendado.
Feliz ano novo e que você viva para ver o Novo Sol!


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