A loucura da meritocracia

O conceito de meritocracia tem defensores ferrenhos e oponentes raivosos. Pessoalmente, não gosto de me colocar em qualquer dessas posições. Acredito que o conceito seja pouco preciso, pouco compreendido, e que gera posições paradoxais e contraditórias nos dois lados da discussão.

Como em toda discussão desse tipo, deve-se entender o conceito de meritocracia que está sendo defendido ou atacado, sob o risco de combatermos espantalhos sem entender o que está sendo discutido.

A palavra “mérito” está intrinsecamente ligada à ideia de merecimento moral, geralmente de ordem particular. Etimologicamente, ela envolvia tanto reconhecimento social (honra, recompensa) quanto espiritual (bondade, favor divino). Assim, o mérito pode ser o reconhecimento de um esforço ou qualidade moral; e.g., "Fulano é um sujeito honesto e trabalhador".

Meritocracia vem da junção dessa palavra com "kratos" (governo). Assim, a meritocracia seria o governo do mérito ou pelo mérito. Literalmente, poder-se-ia imaginar numa forma de governo por aqueles que são mais sábios, morais ou honrados, algo que talvez fizesse sentido na filosofia grega. Rejeito inteiramente essa noção, que a um só tempo é contrária à ideia supostamente defendida pela democracia (de que o povo escolhe quem deseja para governar, e não é governado por uma casta de iluminados) quanto à liberdade e o bom senso (se sou um fumante, ninguém "merece" me governar por ter hábitos mais saudáveis do que os meus ou por ser um médico competente).

Há outros conceitos de meritocracia e a distinção entre eles é o que gera desentendimento. O termo como descrito inicialmente em "A Ascensão da Meritocracia" (1958), de Michael Young (basicamente, QI + esforço, o que por si só demonstra que a meritocracia não pode ser medida apenas pelo esforço), foi utilizado de forma satírica e crítica. Mais tarde, defensores do conceito chamam de meritocracia a viabilidade de pessoas mais pobres ascenderem socialmente por conta de sua inteligência e esforço, ideia que dificilmente encontraria oponentes.

Mas não é essa a acepção de meritocracia comumente usada. 

Normalmente, quem diz defender a meritocracia acredita que certos cargos ou posições devem ser ocupados pelo "merecimento" de algumas pessoas, enquanto quem ataca o conceito costuma apontar que tais pessoas não merecem suas posições e que medir uma pessoa pelas suas conquistas gera mais injustiças uma vez que os pontos de partida são radicalmente diferentes, o que nos parece evidente. Curiosamente, no entanto, há uma tendência dos críticos do conceito em sugerir mais meritocracia, apontando que outros são mais merecedores, ou procurar quaisquer meios de tornar a meritocracia mais abrangente e eficiente.

O conceito de "mérito" por si só já gera enorme confusão, e a meritocracia como proposta é, de fato, muitas vezes uma farsa, como pretendemos demonstrar.

Há dois erros fundamentais que prejudicam todo o discurso acerca do tema.

Primeiro, o componente moral do termo "mérito". Ou seja, a ideia de que o presidente de uma grande empresa está em sua posição porque de alguma forma é moralmente "merecedor" dela, possivelmente pelo seu esforço pessoal. Trata-se de um erro grave e um absurdo óbvio, mas não mais absurdo do que acreditar que outrem é merecedor da posição.

Segundo, a ideia de que seria bom ou desejável ser governado pelas pessoas de extremo valor moral ou competência também é dúbia e, se levada às últimas consequências, traria resultados desastrosos. (Evitarei aqui a discussão acerca da possibilidade de pessoas de grande valor moral desejarem governar ou controlar outros seres humanos, o que considero uma possibilidade bastante rara).

Um simples "reductio ad absurdum" deve ser suficiente para ilustrar as limitações mais óbvias do conceito de meritocracia. 

Imaginemos alguém que nasceu com severas deformidades físicas e graves problemas mentais; cresceu sem o amor dos pais e sobreviveu por meio da caridade de estranhos; e, em que pese seu intelecto limitado, por meio de extremo esforço pessoal, se tornou uma pessoa bondosa, quase funcional, e um trabalhador dedicado embora semianalfabeto e com algumas dificuldades óbvias de comunicação e compreensão. Alguém em sã consciência diria que ele não "merece", ao menos moralmente, um alto cargo em qualquer empresa, ou talvez no governo? Talvez pudessem oferecer-lhe que fosse piloto da sua próxima aeronave, ou que projetasse a ponte sobre a qual seu carro está passando. Todavia, isso  obviamente geraria diversos prejuízos a todos os envolvidos, talvez até ao próprio "merecedor".

Ou pensemos na figura de Ephialtes, que teria traído o exército espartano na Batalha das Termópilas (480 a.C.); segundo entendo, historicamente, a traição teria sido por interesse. Mas me refiro aqui ao personagem do filme (e graphic novel) "300", em que Ephialtes é um corcunda (por evidente determinação genética), que sobreviveu ao infanticídio espartano porque os pais o esconderam (novamente, por circunstâncias alheias à sua vontade). Ele busca se juntar ao exército espartano, disposto a lutar e morrer, mas Leônidas o rejeita porque seu corpo deformado não é capaz de levantar o escudo suficientemente para proteger o companheiro de batalha ao seu lado. Ephialtes então decide trair os espartanos e, embora Xerxes lhe prometa honras e riquezas, suas motivações principais são vingança e, sobretudo, ressentimento.

Trata-se de uma ilustração quase perfeita (ainda que ficcional) da loucura da "meritocracia". 

Primeiro, porque o exército "profissionalizado" e "meritocrático" dos espartanos necessitava de infanticídio para funcionar adequadamente; um bebê deformado sequer teria o "merecimento" de continuar vivo, uma ideia eugênica e absurda que deve causar repulsa a qualquer pessoa que esteja lendo esse texto no ano de sua publicação. 

Segundo, pelo erro de Ephialtes de acreditar que sua coragem e esforço seriam suficientes para participar da vanguarda de um exército que defenderia toda a nação, quando a posição seria obviamente melhor preenchida por alguém que tivesse sido simplesmente abençoado por uma constituição robusta e um corpo atlético (além do treinamento adequado desde tenra idade). Mas, principalmente, pela reação de Ephialtes à situação: ressentimento, ódio e traição. Ora, se tenho direito por meu próprio esforço e abnegação a uma posição de honra, que me é negada, em seguida passo a destruir os ideais que eu dizia ser capaz de defender, metaforicamente preferindo uma posição de destaque no inferno do que um papel modesto no céu.


Estamos tratando aqui de personagens limitados, com doenças graves. E no outro extremo? Que tal sermos governados por indivíduos que além de esforçados são também sábios e caridosos?

A ideia é igualmente nociva. O "merecimento" de quem quer que seja é praticamente imensurável. Comparemos, por exemplo, dois candidatos a uma vaga na faculdade. Um deles tem pais que são empresários muito ricos que lhe proporcionaram os melhores tutores, de modo que acabou se tornando um sujeito culto, apesar de ter uma inteligência um tanto limitada. Outro sempre foi bastante pobre e também conseguiu adquirir enorme cultura pois, apesar dos meios limitados, é dotado de uma inteligência excepcional e de pais que são eruditos e falidos. Qual dos dois é mais "merecedor" do que quer que seja? Tenho a impressão que o pretendente pobre atrairia mais simpatia por causa da tendência humana de ver a inteligência inata, como a beleza inata, como algo proveniente de esforço próprio (o "efeito halo"), o que obviamente não é verdade.

A lógica do interesse aqui é mais apropriada e precisa do que a lógica da meritocracia. A faculdade em questão pode estar interessada em ter o candidato mais inteligente para que possa absorver melhor o conhecimento adquirido (embora os dois comecem no mesmo ponto, aquele que aprendeu com mais facilidade tende a continuar a fazê-lo), ou talvez no candidato mais rico para que possa pagar um preço exorbitante e enriquecer os donos da universidade ou permitir que outros alunos mais pobres recebam bolsas. Talvez o Estado tenha interesse em custear parte dos estudantes para que esses possam ajudar a resolver problemas de fome no mundo ou a desenvolver armas mais terríveis para intimidar as nações vizinhas. 

A sociedade como um todo tem óbvio interesse em garantir que um número máximo de crianças desenvolva ao máximo seu potencial criativo, intelectual, humano, etc., desde a sua concepção, garantindo inclusive uma boa alimentação durante o período uterino. Nada disso se relaciona com um merecimento pessoal ou qualquer esforço específico que tais bebês tenham despendido.

Aqui cabe fazer um pequeno parêntese para falar de ações afirmativas e políticas de diversidade, que frequentemente são colocadas em oposição à meritocracia, mas utilizam uma lógica muito semelhante. Por exemplo, ao estabelecermos uma cota para estudantes pobres, vamos escolher normalmente o mais brilhante entre eles, assumindo que ele "merece" mais a vaga do que um estudante rico com a mesma nota. No entanto, raramente vamos privilegiar aquele estudante que é ainda mais esforçado do que esse, que tenha passado por enormes limitações intelectuais causadas antes do nascimento ou na primeira infância. E, nos casos em que se tenta levar em consideração cada uma das dificuldades – ausência paterna, condições sociais, preconceitos, limitações físicas, etc. – chegamos a um tipo de cálculo que é justamente a meritocracia elevada ao nível mais complexo, ou seja, uma medição detalhada do "merecimento".

Da mesma forma, não se cogita excluir ou prejudicar aqueles estudantes dotados de memória ou habilidades excepcionais em matemática ou redação que diminuam o esforço exigido em comparação com os demais estudantes.

Novamente, aqui, é possível considerar a lógica do interesse ao invés da meritocracia; pode ser que a faculdade deseje ter estudantes advindos de condições adversas, ou que uma empresa prefira ser bastante diversa por razões de marketing e assim por diante. Pode ser que o CEO de uma empresa prefira a companhia de seu próprio filho, ou tenha maior confiança ou preferência por ele, do que em um desconhecido que não teve a mesma facilidade, ou ainda que ache mais interessante e lucrativo ter alguém com um background diverso para atrair uma gama maior de clientes. Muitas vezes esse interesse é explicitado, e outras vezes é escondido ou ofuscado – tendo a intuir que não há nada errado com o primeiro caso e algo de vergonhoso ou suspeito no segundo. De qualquer forma, isso nada tem a ver com "méritos".

Não se questiona aqui se as políticas afirmativas ou a taxação dos ricos, etc., sejam boas ou ruins (é mais provável que isso dependa da forma com que forem implementadas), mas sim o moralismo artificialmente colocado sobre uma questão de interesse (i.e., é interesse do estado receber mais impostos sem que isso espante seus contribuintes, é interesse do indivíduo trabalhar no país que mais beneficie seus dons específicos, e assim por diante). 

A lógica do interesse, por si só, também não se sustenta, devendo ser acompanhada por uma crença na dignidade e liberdade humanas como merecimento de todos e não como consequência de esforços e habilidades individuais, pois caso contrário o interesse do estado justificaria o infanticídio espartano. Ou seja, o interesse deve ser limitado pela moralidade, e não ser confundido com ela; seu disfarce moralista proporciona justamente que suas piores imoralidades sejam ocultadas ("e.g., tais bebês condenados pelos deuses não merecem viver!").

É evidente que qualquer um de nós pode se esforçar para ser mais belo, mais rico, mais inteligente e quiçá até mais alto do que foi ontem, mas há pessoas que já nascem mais belas, ricas e inteligentes do que nós. Características como trabalho duro e mesmo honestidade também podem ter um componente genético significativo (ao que toda ciência atual indica), e mesmo os que acreditam que esse componente é desprezível tendem a concordar que nossos pais – que, na maior parte dos casos, não escolhemos, e que algumas pessoas sequer conhecem – têm uma influência decisiva (ainda que também limitada, como qualquer pessoa que tem mais de um filho sabe) sobre essas características.

Assim, nosso "merecimento" pelas nossas características é bastante limitado, uma vez que não temos controle completo sobre nossos genes, pais ou o local e condições de nosso nascimento. 

A própria ideia de "merecimento" gera uma série de ilusões nocivas sobre o universo. Se eu quero completar uma maratona, eu não "mereço" ter sucesso ou nem "mereço" falhar por causa de uma doença congênita ou uma chuva torrencial. O universo simplesmente não funciona assim.

Consideremos o exemplo do lutador Jon Jones, que por muito tempo foi considerado por muitos como o melhor lutador do mundo no MMA. Seus irmãos são atletas da NFL, e a envergadura dos seus braços também foi por muito tempo a maior do UFC. Quanto às suas controvérsias e problemas legais, você mesmo pode verificar na Wikipedia. Os esportes de combate são às vezes imaginados como exemplo de meritocracia, por ausência de favoritismos, nepotismo, etc. Mas, ao menos em tese, é possível imaginar alguém que moralmente parecesse "merecer" vencer uma luta ainda mais do que o campeão. Ocorre que o UFC, como muitas coisas na vida, é uma competição de habilidade e não de merecimento.

Também devo manifestar minha objeção à monstruosa ideia que os reis-filósofos de Platão, uma intelligentsia, elites iluminadas, especialistas, bilionários ou teocratas "mereçam" nos governar por alguma suposta natureza superior, ou que os governantes espartanos tenham o direito de determinar quais bebês vivem e quais morrem, como ocorreu também em outros regimes e crenças eugenistas pela história.

Ora, mesmo que não "mereçamos" moralmente nosso nascimento ou nossas habilidades, nós temos um evidente direito moral aos atributos que nos foram concedidos pelo universo (ou por Deus, pelo acaso, pelos "deuses", etc.), da mesma forma que temos direito ao nosso próprio corpo. Aqueles que querem roubar ou castrar os dons alheio so fazem por tirania, ressentimento, ou (mal disfarçado) interesse próprio, e não por alguma forma de justiça ou moralidade.

Se eu desejar ser mais alto, por exemplo, não procurarei cortar os pés de multidões em nome da igualdade ou do fato de que eu "mereço" ser alto tanto quanto qualquer um - apesar de eventuais facilidades que pessoas mais altas do que eu possam ter em suas carreiras, relacionamentos e práticas de basquete.

Não se trata de um "merecimento" individual, mas um direito generalizado a todos que receberem, mesmo sem nenhum esforço (contanto que, evidentemente, não o façam a custa do prejuízo alheio), dons e vantagens dos mais diversos tipos. Assim, o sujeito mais bonito, mais rico ou mais inteligente pode dispor de seus próprios dons conforme seu livre arbítrio, respeitando a moralidade de não querer se impor sobre os demais. 

Também é extremamente comum que habilidades únicas e imerecidas, aproveitadas ao máximo por seus portadores, sirvam melhor ao interesse coletivo. Alguém que nasça com uma habilidade musical extraordinária (ou seja obrigado a praticar contra sua vontade desde bebê por pais rígidos) pode gerar beleza para apreciação de muitos. Alguém com mais dinheiro do que talento musical pode escolher patrociná-lo, novamente, por interesse (estético ou egóico) próprio, embora o arranjo possa beneficiar outros - como aconteceu nos casos de Mozart, Beethoven e Bach.

Tampouco os pais, professores e mecenas de Mozart, ou mesmo toda a raça humana tem direito ou "merecimento" à sua obra, mas apenas interesse em acessá-la. O próprio Mozart tem direito de fazer o que desejar com suas habilidades e mesmo queimar suas partituras, mas isso decorre das suas circunstâncias, habilidades inatas, oportunidades, etc., e não de "merecimento" por seu esforço apenas. Alguém mais esforçado e com menos talento ou instrução não teria o mesmo direito à sua obra. [Não estou discutindo aqui o direito de outros músicos reproduzirem, transcrever, gravarem ou copiarem a música de Mozart caso ele deseje apresentá-la em público, mas o direito do próprio Mozart de fazer com seus talentos o que bem lhe aprouver - inclusive nada].

Uma variação sinistra dessa ideia seria acreditar que as pressões e dores sofridas por alguém em prol de sua arte o fariam "merecedor" de ser um artista de grande estatura, ideia que merece ser rejeitada. A uma, porque alguém com mais sofrimento não seria mais merecedor; a duas, porque se isto fosse verdade estaríamos proporcionando o máximo de aflição aos nossos filhos para fazê-los merecedores de algo especial, tirando-lhe a um só tempo a paz e as escolhas, e jogando sobre seus ombros a expectativa injusta e quase impossível de ser um novo Mozart, vitimando-os triplamente. Uma vítima não merece prêmios, mas sim tem direito à justiça, reparação, etc., com relação especificamente aqueles que a vitimaram, e não à coletividade.

Um exemplo mais positivo é a história da Grande Mestre de Xadrez Judit Polgár. Antes dos cinco anos  de idade, ela já recebia instrução no jogo por seus pais, que se haviam se casado com o intuito de realizar um "experimento" para criar crianças prodígios. Independentemente de quaisquer dificuldades, seus pais consideravam que ela e suas irmãs deveriam desenvolver seus talentos com muito estímulo mas também apoio, diversão e desejo próprio, transformando os treinos de xadrez, de várias horas ao dia, numa espécie de brincadeira. Ora, caso tivesse aprendido com mais violência e sofrimento, não teria mais "merecimento" sobre seus resultados (possivelmente muito inferiores) do que já tinha aprendendo com diversão. "Brincar não é o oposto de trabalhar", seu pai dizia; "nunca se pode atingir resultados pedagógicos sérios [...] por meio da coerção" (cf. Ultra- aprendizado, de Scott Young).

Esse é outro fator a ser considerado: a ideia de que só o esforço nos faz produtivos é possivelmente bastante equivocada e ineficiente. Em grande parte das habilidades, alguém que se esforça demais para fazer algo que não lhe apraz (seja música, negócios ou esportes) é facilmente superado por alguém que tem prazer genuíno em realizar a mesma atividade por horas e horas.

Para colocar a questão em termos mais espartanos — embora eu não me lembre se a anedota vem de 300, de Tucídides ou de outra fonte qualquer —, supostamente um guerreiro, ao ser questionado sobre por que havia sobrevivido à batalha e se teria sido menos valoroso do que os que morreram, respondeu que "as flechas seriam muito inteligentes se escolhessem cair primeiro sobre os corajosos". Em outras palavras, o sucesso (e o que se chama de "mérito") tem enorme influência do acaso.

Rejeito também a ideia elitista de que artistas como Mozart "mereçam" ter mais ouvintes do que uma Britney Spears, que é uma artista sustentada por um mecenato muito mais difuso e democrático do que esses outros. Quando menciono meus músicos preferidos - o que não fiz nesse parágrafo - o faço pelo interesse pessoal de vê-los mais famosos e não por alguma superioridade intrínseca de sua música, que não discuto aqui.

Não há qualquer prova objetiva de que nós "mereçamos" sequer existir nessa terra, se não aquela evidenciada pela nossa própria concepção – e nem precisamos de tal prova. Recebemos a vida, e tudo que há nela, muito mais por graça, sorte ou acaso do que por merecimento próprio – pois, ao contrário dos espartanos, não acreditamos que limitações pessoais sejam sinais de que não merecemos existir ou continuar vivendo. 

A palavra "dom", etimologicamente "donum" (presente, dádiva); em uma de suas acepções mais comuns, significa talento, ou ainda bem ou graça recebida de divindade. Em inglês, o termo "gift" é ainda mais apropriado, servindo também como sinônimo de dádiva ou presente. 

Nossos dons são aumentados e realizados em nossos esforços, mas não são criados por eles. Cabe a nós zelar por eles e possivelmente manifestar gratidão por tê-los recebido sem esforço ou merecimento.

E, quando nos faltarem dons, e formos colocados no papel de Ephialtes, não nos cabe clamar por um merecimento de algo que nos é negado apesar de todos os nossos esforços, mas sim reafirmar nossa dignidade apesar de nossas limitações e lutar pelo lado que considerarmos correto (espartano ou persa) na posição que nos estiver disponível, com a esperança de que ela corresponda não aos nossos méritos, mas em especial às nossas habilidades, inclinações e interesses, que são únicos, individuais, e indubitavelmente nossos por direito.

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