O Povo do Abismo (Abraham Merritt)

"O Povo do Abismo" (The People of the Pit, 1918) é um conto de horror do americano Abraham Merritt (1884–1943), publicado originalmente na revista All-Story Weekly. Merritt foi uma das grandes influências da fantasia e do horror cósmico do século XX, antecipando muitos temas de H. P. Lovecraft e  figurando no Appendix N de Gary Gygax. A obra está em domínio público no Brasil e nos EUA. Traduzido para o português por inteligência artificial (Claude, Anthropic), 2026.

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O Povo do Abismo

Ao norte de nós um feixe de luz disparou até a metade do zênite. Vinha de trás dos cinco picos. O raio subia através de uma coluna de névoa azul cujas bordas eram tão nítidas quanto a chuva que escoa pelas beiradas de uma nuvem de trovão. Era como o clarão de um holofote através de uma névoa azulada. Não projetava sombras.

Ao subir, os cumes se recortaram nítidos e negros, e vi que a montanha inteira tinha a forma de uma mão. Enquanto a luz a silhuetava, os dedos gigantescos se estendiam; a mão parecia empurrar-se para a frente. Era exatamente como se ela se movesse para deter alguma coisa. O raio brilhante se manteve firme por um momento; depois se desfez em miríades de pequenos glóbulos luminosos que balançavam de um lado para o outro e caíam suavemente. Pareciam estar procurando algo.

A floresta havia ficado muito quieta. Cada ruído do mato prendia a respiração. Senti os cães se pressionando contra minhas pernas. Eles também estavam em silêncio; mas cada músculo de seus corpos tremia, o pelo estava eriçado ao longo dos dorsos e seus olhos, fixos nas luzes que caíam, estavam turvos com o vidro do terror.

Olhei para Anderson. Ele encarava o Norte, onde mais uma vez o raio havia pulsado para o alto.

"Não pode ser a aurora boreal," falei sem mover os lábios. Minha boca estava tão seca como se Lao T'zai houvesse despejado seu pó do medo pela minha garganta.

"Se for, nunca vi uma assim," respondeu ele no mesmo tom. "Além disso, quem já ouviu falar em aurora boreal nesta época do ano?"

Ele expressava o pensamento que estava em minha própria mente.

"Me faz pensar que algo está sendo caçado lá em cima," disse ele, "uma caçada de espécie profana — é bom que estejamos fora do alcance."

"A montanha parece se mover cada vez que o feixe dispara," disse eu. "O que ela está segurando, Starr? Me faz pensar na mão congelada de nuvem que Shan Nadour pôs diante do Portal dos Ghuls para mantê-los nos covis que Eblis lhes cortou."

Ele ergueu uma mão — escutando.

Do Norte e lá no alto veio um sussurro. Não era o frêmito da aurora boreal, aquele som apressado e crepitante como os fantasmas de ventos que sopraram na Criação, correndo pelas folhas-esqueleto de árvores antigas que abrigaram Lilith. Era um sussurro que continha uma exigência. Era ansioso. Nos chamava para subir aonde o raio faiscava. Atraía. Havia nele uma nota de insistência inexorável. Tocou meu coração com mil dedozinhos pontudos de medo e me encheu de um vasto anseio de correr para dentro da luz e nela me dissolver. Deve ter sido assim que Ulisses se sentiu quando se esticava contra o mastro e lutava para obedecer ao canto cristalino e doce das Sereias.

O sussurro foi crescendo.

"Que diabo está havendo com esses cães?" gritou Anderson irritado. "Olhe para eles!"

Os malamutes, ganindo, corriam em direção à luz. Vimo-los desaparecer entre as árvores. Voltou até nós um uivo lúgubre. Depois esse também se extinguiu, deixando apenas o murmúrio insistente lá no alto.

A clareira onde havíamos acampado apontava direto para o Norte. Tínhamos chegado, suponho, umas trezentas milhas acima da primeira grande curva do Koskokwim em direção ao Yukon. Estávamos certamente numa parte inexplorada do sertão. Tínhamos avançado desde Dawson com o degelo da primavera, numa boa pista para os cinco picos perdidos entre os quais, conforme nos dissera o médico-feiticeiro atapascano, o ouro escorre como massa de uma mão cerrada. Não foi possível conseguir um único índio que nos acompanhasse. A terra da Montanha da Mão estava amaldiçoada, disseram eles. Avistáramos os picos na noite anterior, seus topos vagamente delineados contra um brilho pulsante. E agora víamos a luz que nos havia conduzido até eles.

Anderson enrijeceu. Através do sussurro havia surgido um curioso bate-bate e um farfalhar. Soava como um urso pequeno se movendo em nossa direção. Joguei uma pilha de lenha no fogo e, quando ela chamejou, vi algo romper o mato. Caminhava de quatro, mas não como um urso. De repente me iluminou — era como um bebê subindo escadas. As patas dianteiras se erguiam em moda grotescamente infantil. Era grotesco mas era — terrível. Foi se aproximando. Estendemos as mãos para as espingardas — e as largamos. De repente soubemos que aquela coisa que rastejava era um homem!

Era um homem. Ainda com aquele passo alto de escalada, ele se balançou até o fogo. Parou.

"A salvo," sussurrou o homem que rastejava, com uma voz que era o eco do murmúrio lá no alto. "Perfeitamente a salvo aqui. Eles não conseguem sair do azul, sabe. Não conseguem pegar vocês — a não ser que vocês vão até eles —"

Caiu de lado. Corremos até ele. Anderson se ajoelhou.

"Pelo amor de Deus!" disse ele. "Frank, olhe isto!" Apontou para as mãos. Os pulsos estavam cobertos com farrapos rasgados de uma camisa pesada. As mãos em si eram tocos! Os dedos haviam sido dobrados nas palmas e a carne havia sido gasta até o osso. Pareciam as patas de um elefantinho preto! Meus olhos percorreram o corpo. Em torno da cintura havia uma grossa faixa de metal amarelo. Dela pendia um anel e uma dúzia de elos de uma cadeia branca e brilhante!

"O que é ele? De onde veio?" disse Anderson. "Olhe, está profundamente adormecido — mas mesmo no sono seus braços tentam escalar e seus pés se erguem um após o outro! E os joelhos — como em nome de Deus conseguiu mover-se sobre eles?"

Era exatamente como ele dizia. No sono profundo que havia acometido o rastejante, braços e pernas continuavam se erguendo num movimento deliberado e terrível de escalada. Era como se tivessem vida própria — mantinham seu movimento independentemente do corpo imóvel. Eram movimentos de semáforo. Se já esteve na plataforma traseira de um trem e observou os semáforos subir e descer, sabe exatamente o que quero dizer.

De repente o sussurro lá no alto cessou. O feixe de luz caiu e não voltou a subir. O homem que rastejava ficou imóvel. Um brilho suave começou a crescer ao nosso redor. Era o amanhecer, e a curta noite de verão do Alasca havia terminado. Anderson esfregou os olhos e se voltou para mim com um rosto abatido.

"Homem!" exclamou. "Parece que passou por uma crise de doença!"

"Não mais do que o senhor, Starr," disse eu. "O que acha de tudo isso?"

"Estou pensando que nossa única resposta está ali," respondeu, apontando para a figura que jazia tão imóvel sob os cobertores que lhe havíamos jogado por cima. "O que quer que fosse — era isso que estava atrás. Não havia aurora boreal naquela luz, Frank. Era como o chamar de algum inferno estranho que os pregadores nunca nos assustaram."

"Não avançamos mais hoje," disse eu. "Não acordaria esse homem por todo o ouro que corre entre os dedos dos cinco picos — nem por todos os diabos que possam estar atrás deles."


Gary Meulemans (Unsplash)

O homem que rastejava jazia num sono tão profundo quanto o Estige. Lavamos e enfaixamos os tocos que haviam sido suas mãos. Braços e pernas estavam rígidos como muletas. Não se mexeu enquanto trabalhávamos sobre ele. Ficou deitado como havia caído, os braços ligeiramente erguidos, os joelhos dobrados.

"Por que rastejava?" sussurrou Anderson. "Por que não andava?"

Eu estava limando a faixa em torno da cintura. Era ouro, mas não era ouro como qualquer outro que eu já havia manuseado. Ouro puro é macio. Aquele era macio, mas tinha uma vida viscosa e imunda própria. Grudava na lima. Dei um talho por dentro, dobrei-a para longe do corpo e a lancei bem longe. Era — repugnante!

Todo aquele dia ele dormiu. Caiu a noite e ainda dormia. Naquela noite não houve feixe de luz, não houve glóbulos farejantes, não houve sussurro. Um feitiço de horror pareceu ter-se levantado daquela terra. Era meio-dia quando o homem que rastejava acordou. Dei um pulo quando a voz agradável e arrastada soou.

"Há quanto tempo estou dormindo?" perguntou ele. Seus olhos azul-claros ficaram curiosos enquanto eu o encarava. "Uma noite — e quase dois dias," disse eu. "Houve alguma luz lá no alto ontem à noite?" Acenou com a cabeça em direção ao Norte, ansioso. "Algum sussurro?"

"Nenhum dos dois," respondi. Sua cabeça recaiu e ele fitou o céu.

"Então desistiram?" disse ele por fim.

"Quem desistiu?" perguntou Anderson.

"Ora, o povo do abismo," respondeu o homem que rastejava, tranquilamente.

Nós o encaramos. "O povo do abismo," disse ele. "Criaturas que o Diabo fez antes do Dilúvio e que de alguma forma escaparam da vingança de Deus. Vocês não estavam em nenhum perigo vindo delas — a não ser que tivessem seguido o chamado. Elas não conseguem ir além da névoa azul. Eu era prisioneiro delas," acrescentou simplesmente. "Elas tentavam me chamar de volta pelo sussurro!"

Anderson e eu nos olhamos, o mesmo pensamento nos dois.

"Estão enganados," disse o homem que rastejava. "Não estou louco. Deem-me um pouquinho para beber. Vou morrer em breve, mas quero que me levem o mais ao sul que puderem antes de eu morrer, e depois quero que façam uma grande fogueira e me queimem. Quero estar num estado tal que nenhum feitiço infernal delas consiga arrastar meu corpo de volta até elas. E vocês o farão também, quando eu lhes tiver contado sobre elas —" hesitou. "Acho que a corrente está fora de mim?" disse ele.

"Eu a cortei," respondi secamente.

"Graças a Deus por isso também," sussurrou o homem que rastejava.

Bebeu o conhaque com água que levamos a seus lábios.

"Braços e pernas completamente mortos," disse ele. "Mortos como eu estarei em breve. Bem, elas me serviram direito. Agora vou lhes contar o que há lá atrás daquela mão. O Inferno!"

"Ouçam. Meu nome é Stanton — Sinclair Stanton. Turma de 1900, Yale. Explorador. Parti de Dawson no ano passado para procurar cinco picos que se erguem como uma mão numa terra amaldiçoada e entre eles escoa ouro puro. A mesma coisa que vocês queriam? Pensei que fosse. No outono passado meu companheiro adoeceu. Mandei-o de volta com alguns índios. Um pouco depois todos os meus índios fugiram de mim. Decidi me firmar, construí uma cabana, me abasteci de comida e fui invernar. Na primavera parti de novo. Pouco menos de duas semanas atrás avistei os cinco picos. Não deste lado, porém — do outro. Deem-me mais um pouco de conhaque.

"Tinha me desviado demais," continuou ele. "Fui longe demais para o Norte. Bati em retirada. Deste lado não se vê nada além de floresta diretamente até a base da Montanha da Mão. Do outro lado —"

Ficou em silêncio por um momento.

"Do outro lado também há floresta. Mas não chega tão longe. Não! Eu saí dela. Estendendo-se por milhas à minha frente havia uma planície. Parecia tão gasta e antiga quanto o deserto em torno das ruínas da Babilônia. Ao seu fim erguiam-se os picos. Entre mim e eles — ao longe — havia o que parecia um baixo dique de rochas. Então — topei com a estrada!

"A estrada!" exclamou Anderson incrédulo.

"A estrada," disse o homem que rastejava. "Uma estrada de pedra fina e lisa. Corria direto até a montanha. Oh, era estrada sim — e gasta como se milhões e milhões de pés tivessem passado por ela durante milhares de anos. Em cada lado havia areia e montes de pedras. Depois de algum tempo comecei a notar essas pedras. Eram talhadas, e a forma dos montes de alguma forma me dava a ideia de que cem mil anos atrás poderiam ter sido casas. Eu sentia a presença humana neles e ao mesmo tempo exalavam o cheiro de uma antiguidade imemorial. Bem —

"Os picos foram ficando mais próximos. Os montes de ruínas, mais espessos. Algo inexprimivelmente desolado pairava sobre eles; algo deles alcançava meu coração como o toque de fantasmas tão antigos que só poderiam ser fantasmas de fantasmas. Segui adiante.

"E agora via que o que eu havia pensado ser a faixa de rochas baixas na base dos picos era uma acumulação mais espessa de ruínas. A Montanha da Mão estava na verdade muito mais distante. A estrada passava entre duas pedras altas que se erguiam como um portal."

O homem que rastejava fez uma pausa.

"Elas eram um portal," disse ele. "Cheguei até elas. Passei entre elas. E então me atirei ao chão e agarrei a terra de pura reverência! Eu estava numa ampla plataforma de pedra. Diante de mim havia — espaço puro! Imaginem o Grand Canyon cinco vezes mais largo e com o fundo removido. Era isso que eu estava contemplando. Era como espiar por sobre a borda de um mundo partido, para dentro do infinito onde os planetas giram! Do lado oposto se erguiam os cinco picos. Pareciam uma mão de advertência gigantesca estendida para o céu. A beira do abismo se curvava para cada lado de mim.

"Conseguia ver talvez uns trezentos metros para baixo. Então uma névoa azul espessa bloqueava a visão. Era como o azul que se vê acumular nas altas colinas ao entardecer. E o abismo — era assombroso; assombroso como o Golfo Maori de Ranalak, que afunda entre os vivos e os mortos e que só a alma recém-liberada tem força para saltar — mas jamais força para cruzar novamente.

"Recuei da beira e me levantei, fraco. Minha mão descansou contra um dos pilares do portal. Havia entalhes sobre ele. Trazia em contornos ainda nítidos a figura heroica de um homem. As costas estavam voltadas. Os braços estendidos. Havia um curioso cocar pontudo sobre ele. Olhei para o pilar oposto. Trazia uma figura exatamente igual. Os pilares eram triangulares e os entalhes estavam no lado voltado para longe do abismo. As figuras pareciam segurar algo para trás. Olhei mais de perto. Atrás das mãos estendidas parecia ver outras formas.

"Fui rastreando-as vagamente. De repente me senti inexplicavelmente enjoado. Havia chegado a mim uma impressão de enormes lesmas eretas. Seus corpos intumescidos estavam tenuemente esculpidos — exceto as cabeças, que eram globos bem marcados. Eram — indesejavelmente repugnantes. Virei as costas para os portais e voltei ao vazio. Me estendi sobre a laje e olhei por sobre a borda.

"Uma escadaria descia para o abismo!"

"Uma escadaria!" exclamamos.

"Uma escadaria," repetiu o homem que rastejava com a mesma paciência de antes. "Parecia não tanto esculpida na rocha quanto construída dentro dela. As lajes tinham cerca de um metro e oitenta de comprimento e um metro de largura. Corria para baixo a partir da plataforma e desaparecia na névoa azul."

"Mas quem poderia construir uma escadaria assim?" disse eu. "Uma escadaria construída dentro da parede de um precipício e descendo para um abismo sem fundo!"

"Sem fundo não," disse o homem que rastejava tranquilamente. "Havia um fundo. Eu o alcancei!"

"Alcançou?" repetimos.

"Sim, pela escadaria," respondeu o homem que rastejava. "Vocês veem — eu desci por ela!"

"Sim," disse ele. "Desci pela escadaria. Mas não naquele dia. Armei meu acampamento atrás dos portais. Ao amanhecer enchi minha mochila com comida, minhas duas cantis com água de uma nascente que brota ali pelo portal, caminhei entre os monólitos esculpidos e passei pela borda do abismo.

"Os degraus corriam ao longo do lado da rocha num ângulo de quarenta graus. Enquanto descia e descia, os estudei. Eram de uma rocha esverdeada bem diferente do pórfiro granítico que formava a parede do precipício. A princípio pensei que os construtores haviam aproveitado um estrato aflorante e dele esculpido seu voo gigantesco. Mas a regularidade do ângulo em que caía me fez duvidar dessa teoria.

"Depois de ter descido talvez uns oitocentos metros, pisei numa patamara. Desta patamara os degraus faziam uma curva em V e seguiam para baixo, abraçando o penhasco no mesmo ângulo do primeiro lance; era um ziguezague, e depois de ter feito três dessas curvas soube que os degraus caíam em linha reta numa sucessão de tais ângulos. Nenhum estrato poderia ser tão regular quanto aquilo. Não, a escadaria foi construída por mãos! Mas de quem? A resposta está naquelas ruínas em torno da borda, creio — nunca para ser lida.

"Ao meio-dia havia perdido de vista os cinco picos e a beira do abismo. Acima de mim, abaixo de mim, não havia nada além da névoa azul. Ao meu lado havia também o nada, pois a parede de rocha mais distante havia desaparecido há muito. Não senti vertigem, e qualquer traço de medo foi engolido por uma vasta curiosidade. O que eu ia descobrir? Alguma civilização antiga e maravilhosa que havia reinado quando os Polos eram jardins tropicais? Nada vivo, eu sentia — tudo era velho demais para a vida. Ainda assim, uma escadaria tão maravilhosa devia levar a algo igualmente maravilhoso, eu sabia. O que seria? Continuei.

"A intervalos regulares havia passado pelas bocas de pequenas cavernas. Haveria dois mil degraus e então uma abertura, mais dois mil degraus e uma abertura — e assim por diante. Tarde naquela tarde parei diante de uma dessas fendas. Suponho que havia descido então uns cinco quilômetros pelo abismo, embora os ângulos fossem tais que eu havia caminhado no total uns dezesseis quilômetros. Examinei a entrada. Em cada lado estavam esculpidas as figuras do grande portal acima, só que agora estavam de frente, os braços estendidos como se retivessem algo das profundezas externas. Seus rostos estavam cobertos com véus. Não havia formas horrendas atrás deles. Entrei. A fissura se estendia por uns vinte metros como uma toca. Era seca e perfeitamente iluminada. Lá fora eu podia ver a névoa azul subir como uma coluna, suas bordas nitidamente marcadas. Senti uma sensação extraordinária de segurança, embora não tivesse sido consciente de nenhum medo. Senti que as figuras na entrada eram guardiãs — mas contra o quê?

"A névoa azul foi espessando e ficando tenuemente luminescente. Imaginei que era o crepúsculo lá em cima. Comi e bebi um pouco e dormi. Quando acordei o azul havia clareado novamente, e imaginei que era amanhecer lá em cima. Continuei. Esqueci o abismo que bocejava ao meu lado. Não senti fadiga, nem muita fome ou sede, embora tivesse bebido e comido parcimoniosamente. Aquela noite passei dentro de outra das cavernas, e ao amanhecer desci novamente.

"Foi tarde naquele dia que vi pela primeira vez a cidade —"

Ficou em silêncio por algum tempo.

"A cidade," disse ele por fim, "há uma cidade, sabe. Mas não como qualquer cidade que vocês já tenham visto — nem qualquer outro homem que tenha vivido para contá-la. O abismo, creio, tem a forma de uma garrafa; a abertura diante dos cinco picos é o gargalo. Mas qual é a largura do fundo não sei — talvez milhares de quilômetros. Havia começado a captar pequenos lampejos de luz lá embaixo no azul. Então vi os topos de — árvores, suponho que sejam. Mas não como as nossas — um tipo desagradável, sinuoso de árvore. Erguiam-se sobre troncos altos e finos, e seus topos eram ninhos de gavinhas espessas com folhinhas feias como pontas de flecha. As árvores eram vermelhas, de um vermelho vivo e irritado. Aqui e ali vislumbrava manchas de amarelo brilhante. Soube que eram água porque podia ver coisas rompendo sua superfície — ou pelo menos podia ver o salpico e as ondulações, mas o que era aquilo que as perturbava nunca vi.

"Bem abaixo de mim estava a — cidade. Olhei de cima para milhas e milhas de cilindros densamente agrupados. Estavam deitados de lado em pirâmides de três, de cinco — de dezenas — empilhados uns sobre os outros. É difícil fazer vocês verem como é aquela cidade — olhem, suponham que vocês têm canos d'água de um certo comprimento e primeiro colocam três deles lado a lado e sobre eles colocam dois e sobre esses dois um; ou suponham que tomem cinco de base e coloquem sobre eles quatro e depois três, depois dois e depois um. Entendem? Era assim que pareciam. Mas eram coroados por torres, por minaretes, por clarões, por leques e monstruosidades retorcidas. Reluziam como se revestidos de chama rosa pálida. Ao lado deles as árvores venenosas e vermelhas se erguiam como cabeças de hidras guardando ninhos de vermes gigantescos, joalhados e adormecidos!

"Alguns metros abaixo de mim a escadaria se projetava num arco titânico, sobrenatural como a ponte que transpõe o Inferno e leva ao Asgard. Curvava para fora e para baixo, direto pelo topo da pilha mais alta de cilindros esculpidos, e depois desaparecia através dele. Era assustador — era demoníaco —"

O homem que rastejava parou. Seus olhos rolaram para dentro da cabeça. Tremeu e seus braços e pernas começaram seu horrível movimento de rastejo. De seus lábios saiu um sussurro. Era o eco do alto murmúrio que havíamos ouvido na noite em que ele veio até nós. Pus as mãos sobre seus olhos. Ele se aquietou.

"As Criaturas Malditas!" disse ele. "O povo do abismo! Eu sussurrei? Sim — mas elas não conseguem me pegar agora — não conseguem!"

Depois de algum tempo ele recomeçou, tão tranquilo quanto antes.

"Atravessei o arco. Desci pelo topo daquele — edifício. Uma escuridão azul me envolveu por um momento e senti os degraus se retorcerem em espiral. Desci em espiral e então — estava de pé bem no alto de — não consigo lhes dizer em quê, terei de chamá-lo de sala. Não temos imagens para o que há no abismo. Cem pés abaixo de mim estava o chão. As paredes inclinavam para baixo e para fora desde onde eu estava numa série de crescentes cada vez mais largos. O lugar era colossal — e estava cheio de uma estranha luz vermelha mosqueada. Era como a luz dentro de uma pedra-fogo verde e dourada. Desci até o último degrau. Bem à minha frente erguia-se um altar alto e colunado. Suas colunas eram esculpidas em volutas monstruosas — como polvos enlouquecidos com mil tentáculos bêbados; repousavam nas costas de monstruosidades sem forma esculpidas em pedra carmesim. A face do altar era uma laje gigantesca de púrpura coberta de entalhes.

"Não consigo descrever esses entalhes! Nenhum ser humano poderia — o olho humano não consegue apreendê-los, da mesma forma que não consegue apreender as formas que assombram a quarta dimensão. Apenas um sentido sutil no fundo do cérebro os captava vagamente. Eram coisas sem forma que não davam imagem consciente, mas pressionavam a mente como pequenos selos quentes — ideias de ódio — de combates entre coisas monstruosas e impensáveis — vitórias num inferno nebuloso de selvas ferventes e obscenas — aspirações e ideais imensamente repugnantes —

"E enquanto eu estava parado, fui tomando consciência de algo que jazia atrás da borda do altar, quinze metros acima de mim. Eu sabia que estava lá — o sentia com cada fio de cabelo e cada pequenino pedaço de pele. Algo infinitamente maligno, infinitamente horrível, infinitamente antigo. Espreitava, ruminava, ameaçava e era — invisível!

"Atrás de mim havia um círculo de luz azul. Corri para ele. Algo me impelia a voltar atrás, a subir a escadaria e fugir. Era impossível. A repulsa por aquela Coisa invisível me impulsionava para a frente como se uma corrente prendesse meus pés. Passei pelo círculo. Estava numa rua que se estendia para a distância sombria entre filas de cilindros esculpidos.

"Aqui e ali as árvores vermelhas se erguiam. Entre elas rolavam as tocas de pedra. E agora eu conseguia absorver a ornamentação impressionante que as revestia. Eram como troncos de árvores de casca lisa que tivessem caído e fossem revestidos de orquídeas nocivas e de alto alcance. Sim — aqueles cilindros eram assim — e mais. Deveriam ter desaparecido junto com os dinossauros. Eram — monstruosos. Golpeavam os olhos como um soco e passavam pelos nervos como uma lixa. E em nenhum lugar havia sinal ou som de coisa viva.

"Havia aberturas circulares nos cilindros como o círculo do Templo da Escadaria. Passei por uma delas. Estava numa longa sala abobadada e despida cujos lados curvados se fechavam quase completamente trinta metros acima da minha cabeça, deixando uma fresta larga que se abria para outra câmara abobadada acima. Não havia absolutamente nada no quarto a não ser a mesma luz vermelha mosqueada que eu havia visto no Templo. Tropecei. Ainda não via nada, mas havia algo no chão sobre o qual havia tropeçado. Abaixei a mão — e ela tocou uma coisa fria e lisa — que se movia sob ela — Virei e corri para fora daquele lugar — estava tomado por uma repugnância que tinha nela algo de loucura — corri e corri cegamente — torcendo as mãos — chorando de horror —

"Quando voltei a mim ainda estava entre os cilindros de pedra e as árvores vermelhas. Tentei refazer meus passos; encontrar o Templo. Estava mais que com medo. Era como uma alma recém-solta entrando em pânico com os primeiros terrores do inferno. Não conseguia encontrar o Templo! Então a névoa começou a se espessar e a brilhar; os cilindros a reluzir mais intensamente. Soube que era o crepúsculo no mundo acima e senti que com o crepúsculo havia chegado minha hora de perigo; que o espessamento da névoa era o sinal para o despertar de quaisquer criaturas que vivessem neste abismo.

"Escalei os lados de um dos covis. Escondi-me atrás de um pesadelo retorcido de pedra. Talvez, pensei, houvesse uma chance de permanecer escondido até o azul clarear e o perigo passar. Começou a crescer ao meu redor um murmúrio. Era por todo lado — e foi crescendo e crescendo num grande sussurro. Espreito pelo lado da pedra para a rua abaixo. Vi luzes passando e repassando. Mais e mais luzes — saíam nadando pelas entradas circulares e enchiam a rua. As mais altas estavam a dois metros e meio acima do pavimento; as mais baixas, talvez a sessenta centímetros. Apressavam-se, passeavam, se curvavam, paravam e sussurravam — e não havia nada sob elas!"

"Nada sob elas!" respirou Anderson.

"Não," continuou ele, "essa era a parte terrível — não havia nada sob elas. No entanto, certamente as luzes eram criaturas vivas. Tinham consciência, volição, pensamento — o que mais eu não sabia. Mediam quase sessenta centímetros de diâmetro — as maiores. Seu centro era um núcleo brilhante — vermelho, azul, verde. Esse núcleo ia se dissolvendo gradualmente numa luz esfumaçada que não terminava abruptamente. Ela também parecia dissipar-se no nada — mas um nada que tinha por baixo um algum-coisa. Forcei os olhos tentando captar esse corpo no qual as luzes se fundiam e que se sentia estar ali, mas não se podia ver.

"E de repente me rigidifiquei. Algo frio e fino como um chicote havia tocado meu rosto. Virei a cabeça. Bem atrás de mim havia três das luzes. Eram de um azul pálido. Olhavam para mim — se podem imaginar luzes que são olhos. Outra chicotada agarrou meu ombro. De baixo da luz mais próxima veio um sussurro agudo. Gritei. De repente o murmúrio na rua cessou. Arranquei meus olhos do globo azul pálido que os prendia e olhei para fora — as luzes nas ruas estavam subindo às miríades até o nível onde eu estava! Ali pararam e me espiaram. Acotovelavam-se e se empurravam como se fossem uma multidão de gente curiosa — no Broadway. Senti uma vintena das chicotadas me tocar —

"Quando voltei a mim estava novamente no grande Lugar da Escadaria, deitado ao pé do altar. Estava tudo em silêncio. Não havia luzes — apenas o brilho vermelho mosqueado. Pulei e corri em direção aos degraus. Algo me puxou de volta para os joelhos. E então vi que em torno de minha cintura havia sido fixado um anel amarelo de metal. Dele pendia uma corrente, e essa corrente subia por sobre a borda da cornija alta. Estava acorrentado ao altar!

"Enfiei as mãos nos bolsos em busca de meu canivete para cortar o anel. Não estava lá! Haviam me tirado tudo exceto uma das cantis que eu havia pendurado no pescoço e que Elas provavelmente haviam pensado ser — parte de mim. Tentei partir o anel. Parecia vivo. Retorcia-se em minhas mãos e se fechava ainda mais em torno de mim! Puxei a corrente. Era imóvel. Veio a mim a consciência da Coisa invisível acima do altar. Me prostrei ao pé da laje e chorei. Pensem — sozinho naquele lugar de luz estranha com o antigo Horror meditando acima de mim — uma Coisa monstruosa, uma Coisa impensável — uma Coisa invisível que derramava horror —

"Depois de algum tempo me dominei. Então vi ao lado de um dos pilares uma tigela amarela cheia de um líquido branco espesso. Bebi. Se me matasse, não me importava. Mas seu sabor era agradável e quando bebi minha força voltou em torrente. Claramente não seria morto de fome. As luzes, fossem elas o que fossem, tinham uma noção das necessidades humanas.

"E agora o brilho vermelho mosqueado começou a se aprofundar. Lá fora ergueu-se um zumbido e pela abertura circular que era a entrada vieram fluindo os globos. Enfileiraram-se em filas até encher o Templo. Seu sussurro cresceu num cântico, um cântico sussurrado e cadenciado que subia e caía, subia e caía, enquanto ao seu ritmo os globos subiam e desciam, subiam e desciam.

"Por toda aquela noite as luzes vieram e foram — e por toda aquela noite o cântico soou enquanto elas subiam e desciam. No fim senti-me apenas um átomo de consciência num mar de sussurro cadenciado; um átomo que subia e caía com os globos que se inclinavam. Digo-lhes que até meu coração batia em uníssono com eles! O brilho vermelho foi diminuindo, as luzes foram saindo em fluxo; o sussurro morreu. Estava novamente sozinho e sabia que mais uma vez o dia havia raiado no meu mundo."

"Dormi. Quando acordei encontrei ao lado do pilar mais do líquido branco. Examinei a corrente que me prendia ao altar. Comecei a friccionar dois dos elos um contra o outro. Fiz isso por horas. Quando o vermelho começou a se espessar havia um sulco gasto nos elos. A esperança jorrou dentro de mim. Havia, então, uma chance de escapar."

"Com o espessamento as luzes vieram novamente. Por toda aquela noite o cântico sussurrado soou, e os globos subiram e desceram. O cântico me agarrou. Pulsou através de mim até que cada nervo e músculo palpitava com ele. Meus lábios começaram a tremer. Lutavam como um homem tentando gritar em pleno pesadelo. E por fim eles também estavam sussurrando o cântico do povo do abismo. Meu corpo se curvava em uníssono com as luzes — era, em movimento e som, um com as coisas sem nome, enquanto minha alma recuava enferma de horror e impotente. Enquanto sussurrava — eu as vi!"

"Viu as luzes?" perguntei estupidamente.

"Vi as Criaturas sob as luzes," respondeu ele. "Grandes corpos transparentes como lesmas — dezenas de tentáculos ondulantes se estendendo deles — bocas redondas e escancaradas sob os globos luminosos e visuais. Eram como os fantasmas de lesmas imensamente monstruosas! Conseguia ver através delas. E enquanto eu fitava, ainda me curvando e sussurrando, a aurora chegou e elas foram fluindo para dentro e através da entrada. Não rastejavam nem andavam — flutuavam! Flutuavam e — sumiram!

"Não dormi. Trabalhei o dia todo em minha corrente. Com o espessamento do vermelho havia gasto um sexto dela. E por toda aquela noite sussurei e me curvei com o povo do abismo, me juntando ao seu cântico para a Coisa que meditava acima de mim!

"Mais duas vezes o vermelho se espessou e o cântico me prendeu — então na manhã do quinto dia parti os elos gastos da corrente. Era livre! Bebi da tigela de líquido branco e despejei o que restava no meu cantil. Corri para a Escadaria. Subi disparado além daquele Horror invisível atrás da cornija do altar e estava sobre a Ponte. Atravessei o arco em disparada e subi a Escadaria.

"Podem imaginar o que é subir em linha reta pela borda de um mundo fendido — com o inferno atrás de vocês? O Inferno estava atrás de mim e o terror me montava. A cidade havia há muito desaparecido na névoa azul antes de eu saber que não conseguia mais subir. Meu coração soava em meus ouvidos como uma marreta. Caí diante de uma das pequenas cavernas sentindo que ali ao menos havia um santuário. Rastejei bem para dentro dela e esperei que a névoa se espessasse. Quase imediatamente assim foi. De bem abaixo de mim veio um murmúrio vasto e irritado. Na boca da fenda vi uma luz pulsar através do azul; morrer; e quando se apagava vi miríades dos globos que são os olhos do povo do abismo balançar para baixo no abismo. Vez após vez a luz pulsava e os globos caíam. Eles me estavam caçando. O sussurro foi crescendo, mais insistente.

"Cresceu em mim o desejo pavoroso de me juntar ao sussurro como havia feito no Templo. Mordi meus lábios até sangrar para calar os meus. Por toda aquela noite o raio disparou pelo abismo, os globos balançaram e o sussurro soou — e agora eu entendia o propósito das cavernas e das figuras esculpidas que ainda tinham poder de guardá-las. Mas quem eram as pessoas que as haviam esculpido? Por que haviam construído sua cidade em torno da borda e por que haviam posto aquela Escadaria no abismo? O que haviam sido para aquelas Criaturas que habitavam no fundo, e de que serventia haviam sido as Criaturas para eles, para que vivessem ao lado de sua morada? Que havia havido algum propósito era certo. Nenhuma obra tão prodigiosa quanto a Escadaria teria sido empreendida de outra forma. Mas qual era o propósito? E por que era que os que haviam habitado em torno do abismo haviam desaparecido idades atrás, enquanto os moradores do abismo ainda viviam? Não consegui encontrar resposta — nem consigo encontrar agora. Não tenho nem a sombra de uma teoria.

"A aurora chegou enquanto eu me interrogava e com ela o silêncio. Bebi o que restava do líquido no meu cantil, saí da caverna rastejando e comecei a subir novamente. Naquela tarde minhas pernas desistiram. Rasguei minha camisa, fiz dela almofadas para os joelhos e coberturas para as mãos. Rastejei para cima. Rastejei e subi. E novamente me encolhi numa das cavernas e esperei até o azul se espessar novamente, o feixe de luz disparar através dele e o sussurro chegar.

"Mas agora havia uma nota nova no sussurro. Não era mais ameaçador. Chamava e seduzia. Atraía."

Um novo terror me apoderou. Havia crescido em mim um poderoso desejo de deixar a caverna e sair para onde as luzes balançavam; deixar que fizessem comigo o que quisessem, me levassem aonde desejassem. O desejo crescia. Ganhava novo impulso a cada elevação do raio até que por fim eu vibrava com o desejo como havia vibrado com o cântico no Templo. Meu corpo era um pêndulo. O raio subia e eu me balançava em direção a ele! Apenas minha alma se mantinha firme. Me prendia ao chão da caverna; e por toda aquela noite lutou com meu corpo contra o feitiço do povo do abismo.

"A aurora chegou. Novamente saí da caverna rastejando e encarei a Escadaria. Não conseguia me levantar. Minhas mãos estavam rasgadas e sangrando; meus joelhos, uma agonia. Me forcei para cima degrau por degrau. Depois de um tempo minhas mãos entorpeceram, a dor saiu dos joelhos. Eles ficaram insensíveis. Degrau por degrau minha vontade impeliu meu corpo para cima sobre eles."

"E então — um pesadelo de rastejo por trechos infinitos de degraus — memórias de horror embotado enquanto escondido dentro das cavernas com as luzes pulsando lá fora e sussurros que chamavam e me chamavam — memória de uma vez em que acordei para descobrir que meu corpo estava obedecendo ao chamado e havia me carregado até o meio do caminho para fora entre os guardiões dos portais enquanto milhares de globos reluzentes descansavam na névoa azul e me observavam."

Vislumbres de lutas amargas contra o sono e sempre, sempre — uma subida por distâncias infinitas de degraus que levavam do Abadão a um Paraíso de céu azul e mundo aberto!

"Por fim uma consciência do céu claro perto acima de mim, a beira do abismo diante de mim — memória de passar entre os grandes portais do abismo e de me retirar firmemente dele — sonhos de homens gigantes com coroas pontudas estranhas e rostos velados que me impeliam para a frente e para a frente e seguravam de volta globos-vela romanos de luz que procuravam me arrastar de volta para um golfo onde planetas nadavam entre os galhos de árvores vermelhas coroadas de cobras."

"E então um sono longo, longo — por quanto tempo só Deus sabe — numa fenda de rochas; um despertar para ver ao longe ao Norte o raio ainda subindo e descendo, as luzes ainda caçando, o sussurro bem acima de mim chamando."

"Novamente rastejando em braços e pernas mortos que se moviam — que se moviam — como o barco do Marinheiro Antigo — sem volição minha, mas que me carregavam para longe de um lugar assombrado. E então — a fogueira de vocês — e isso — segurança!"

O homem que rastejava nos sorriu por um momento. Então subitamente a vida se apagou de seu rosto. Ele dormiu.

Naquela tarde levantamos acampamento e, carregando o homem que rastejava, começamos a voltar para o Sul. Por três dias o carregamos e ainda dormia. E no terceiro dia, ainda dormindo, morreu. Construímos uma grande pilha de lenha e queimamos seu corpo como ele havia pedido. Espalhamos suas cinzas pela floresta junto com as cinzas das árvores que o haviam consumido. Deve ser um grande feitiço de fato o que conseguiria desembaraçar aquelas cinzas e arrastá-lo de volta em nuvem ruidosa para o abismo que ele chamou de Maldito. Não creio que nem mesmo o Povo do Abismo tenha tal encantamento. Não.

Mas não voltamos aos cinco picos para ver.

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