Autoajuda que Presta
Tenho percebido um preconceito contra livros de autoajuda. A lógica parece ser: autoajuda é coisa de coach, coach é charlatanismo, logo todo livro de autoajuda é lixo.
O escritor de ficção científica Theodore Sturgeon disse que "90% de tudo é lixo", ao defender seu próprio gênero das críticas de que era uma literatura menor. A resposta dele foi simples: sim, 90% da ficção científica é ruim, mas 90% de tudo também é.
Com autoajuda, a lógica é exatamente a mesma. Se você entrar na Amazon agora e navegar pela categoria, vai encontrar livros de divulgação científica, guias de finanças pessoais, textos de filosofia estoica com dois mil anos de idade, métodos de gestão de tempo usados em empresas do mundo todo, e sim, também vai encontrar livros de coach com frases de efeito.
Uma nota rápida: não vou discutir classificações. Estou usando a Amazon porque é fácil verificar. Se a sua livraria organiza a estante de outro jeito, tudo bem. Se você acha que algum desses livros não é "de verdade" autoajuda, também não vou brigar. Estou usando a classificação dos vendedores porque é assim que a maioria das pessoas pesquisa e encontra esses livros.
Se você ler esses seis livros (ou tipos de livros) e achar tudo um lixo, talvez o gênero realmente não seja pra você. Alguns livros que li recentemente e recomendo são:
Ultra Aprendizado de Scott Young, é um guia de aprendizado rápido e intenso. Não foi o melhor livro que já li sobre o assunto, mas é útil e prático para quem quer aprender algo novo com urgência. É também um bom exemplo de livro que cai na prateleira de autoajuda por falta de nome melhor ("livros de auxílio de aprendizado"?). Se quiser saber mais, leia esse artigo.
A Arte de Não Agradar e A Arte de Ser Feliz merecem destaque justamente porque os títulos parecem coisa de coach. Na prática, não têm nada disso. Os dois são a psicologia de Alfred Adler traduzida para a vida cotidiana, acessível para quem não tem formação em psicologia, mas profundo o suficiente para mudar a forma como você enxerga suas próprias relações. Estão entre os melhores livros que já li. Se quiser saber mais, leia esse artigo.
Psicologia Financeira, de Morgan Housel, aborda as armadilhas psicológicas que nos fazem tomar decisões financeiras ruins. É frequentemente chamado de o "Pai Rico, Pai Pobre" da geração atual. A Arte de Gastar Dinheiro funciona como contraparte: apesar do título, ensina principalmente a não desperdiçar com status e aparências.
O Estoicismo é uma filosofia romana que aparece com frequência na seção de autoajuda, e faz sentido, porque sua aplicação é muito prática. Ryan Holiday é o autor mais conhecido do estoicismo contemporâneo, mas na mesma prateleira você pode encontrar Marco Aurélio e Epicteto. Você pode ler qualquer livro do Holiday pra conhecer mas eu também recomendo ler Sêneca direto.
A Arte de Fazer Acontecer, de David Allen, é um livro de gestão de projetos pessoais e profissionais. Sendo honesto: a leitura é cansativa. Mas o método em si, o GTD, é fantástico e uso até hoje, assim como várias empresas. Se quiser saber mais, leia esse artigo.
A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, documenta os efeitos dos celulares e das redes sociais nas gerações que cresceram com eles, com dados e argumentação bem construída. Acaba sendo classificado como autoajuda não porque seja motivacional, mas porque toca em algo próximo da vida cotidiana de qualquer pessoa.
Vale mencionar também os livros que se limitam a trazer otimismo, frases motivacionais e espiritualidade difusa. Não são o meu favorito pessoalmente, mas isso não significa que não tenham utilidade. Manter o otimismo tem valor real, e isso já é respaldado pela neurologia. Mesmo um livro cheio de frases que parecem bobinhas pode ser algo agradável de ler antes de dormir, trazendo uma paz interior parecida com a de olhar para uma árvore, ler poemas leves, manter um diário de gratidão ou qualquer outro exercício simples de bem-estar. Cada pessoa encontra o que precisa à sua maneira.
Esses livros não têm quase nada em comum além da prateleira onde ficam. E é exatamente esse o ponto. Criticar "autoajuda" como um gênero homogêneo é ignorar uma diversidade enorme de temas e qualidades. É semelhante a dizer "todo romance é ruim" ou "livros de guerra são sempre um lixo". Vale a pena conhecer antes de descartar.
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